Noticia: Desenterrar o passado à colherada em Beja

>> terça-feira, 13 de outubro de 2009

 O i acompanhou quatro arqueólogos responsáveis pela descoberta de um templo romano em Beja

Alguma vez lhe ocorreu a hipótese de estar a dormir sobre um cemitério? E ter debaixo de sua casa um tesouro com mais de mil anos? É pouco provável que isto lhe tenha passado pela cabeça mas, acredite, o chão que pisamos esconde histórias insondáveis. Que o digam os arqueólogos com quem o i conversou, em plena escavação de Beja, onde recentemente foi descoberto um dos maiores templos romanos da Península Ibérica.

Quando começou a carreira, Conceição Lopes, hoje uma das principais investigadoras da Universidade de Coimbra e coordenadora deste projecto, teve um rasgo de sorte. Na Vidigueira, enquanto trabalhava num tanque da idade do bronze, a jovem arqueóloga descobriu um tesouro com mais de 200 moedas datadas do século II. Sorte de principiante? Talvez, mas também um pequeno problema em mãos.
"Eram seis da tarde e os trabalhadores estavam prestes a ir embora. Não podia simplesmente retirar as moedas e voltar no dia seguinte", recorda. Mais do que a descoberta em si, aos arqueólogos interessa o contexto do achado - através do qual se pode determinar, por exemplo, a sua cronologia. E esse implica tempo de análise. "A solução foi dormir ali ao relento, junto ao tesouro. Não podia arriscar perdê-lo."

Escavar no pico do Verão
Muitos anos depois deste episódio, a investigadora volta ao Alentejo. Desta vez traz consigo alguns dos seus alunos, que trocaram as férias na praia pela campanha arqueológica numa das cidades mais quentes do país. O objectivo? Escavar um templo do século I, dedicado a um imperador romano. A descoberta foi feita há 70 anos, mas as escavações só começaram em 1996. Quando o i visitou o "buraco", já só se fazia o trabalho de minúcia. As pás gigantes das escavadoras deram lugar ao colherim, um pequeno objecto que serve para remover a terra, e que, em conjunto com o método estratigráfico, permite interpretar os dados que a terra esconde. "É um método que nos diz que, ao longo dos tempos, tudo o que aconteceu, seja fruto da mão humana ou da natureza, se deposita em camadas", explica Conceição Lopes.

Moedas, peças de cerâmica, vestígios animais, ossos humanos, praticamente todos os objectos descobertos ao longo das diferentes camadas têm uma leitura e são quantificáveis no tempo. Mas não só: "Um osso humano, por exemplo, pode ajudar-nos a reconstituir os hábitos alimentares, a dieta, a causa de morte, as doenças da época. É informação que nunca mais acaba", explica Susana Gomez, uma investigadora espanhola radicada em Portugal há mais de 17 anos. No caso dos cemitérios, acrescenta Conceição Lopes, é possível até identificar a crença religiosa: "Depende da forma como estão dispostos, se estiveram deitados a sul, de forma lateral, podemos dizer com algum grau de certeza que são muçulmanos. Se estiverem de braços pousados sobre o peito, são católicos."

Se antigamente o trabalho do arqueólogo passava pelo uso de colheres e vassouras, hoje as novas tecnologias deram novo alento à investigação, sem as substituir. O Google Earth, por exemplo, veio simplificar muito o trabalho de prospecção de vestígios. "Antigamente, funcionava tudo na base das fotogragias aéreas", conta Tiago Costa, estudante de mestrado em Arqueologia e Território.

Além da proximidade de outras descobertas, ou do nome da terra, a própria disposição das habitações e a forma como os terrenos estão divididos são condicionados pelo que está debaixo da terra.

No Alentejo - explica a investigadora Ana Costa - quando o trigo começa a secar, "as cores são distintas consoante o que está no subsolo." E hoje, continua Conceição Lopes, "já não é necessário comprar fotografias caríssimas." Claro que isto não dispensa a investigação no terreno, nem tão pouco a parte laboratorial que lhe segue. A parte que mais os entusiasma? "Impossível, é o mesmo que dizer de que filho mais se gosta."

Provavelmente, o maior templo romano da Península Ibérica
Foi identificado em 1939 mas só começou a ser investigado há dez anos. A estrutura é semelhante ao Templo de Diana, em Évora

Por estes dias, Beja está longe de ser uma das urbes mais importantes do país. Mas no século II pode ter sido uma imensa cidade romana, sede dos conventus e administrada com uma circunscrição jurídica que ia do rio Tejo ao Algarve. Pelo menos é essa a convicção dos arqueólogos que, desde 1997, trabalham nas escavações de um templo romano, por muitos identificado com um dos maiores da Península Ibérica.

“Era uma cidade com estatuto de colónia de Roma, os seus cidadãos tinham direitos idênticos aos romanos. Do ponto de vista político, os cidadãos de Pax Julia (designação de Beja na época romana) que tivessem um milhão de sestércios podiam ser senadores em Roma”, explica Conceição Lopes, adiantando que “as inscrições que existem fornecem a ideia de uma cidade grande, com muita indústria, comércio e artesanato”.

A estrutura – com 30 metros de comprimento e quase vinte de altura – foi descoberta nas traseiras da Câmara Municipal e é semelhante ao templo de Diana. À sua volta, tal como no templo de Évora, existia um tanque para abastecimento de água. “É pelos materiais que descobrimos, como cerâmicas importadas da Campânia, ânforas que transportavam vinho e alguns dados da idade do ferro que nos permitem datar a estrutura.”

O templo está integrado numa grande praça, o chamada fórum, cujos vestígios já tinham sido anteriormente identificados por Abel Viana, em 1939, aquando da construção do reservatório de água de Beja. Os vestígios foram novamente tapados e só 60 anos depois voltariam a ver a luz do dia. Nas duas primeiras campanhas, em 1999 e 2006, foram descobertos edifícios de várias épocas, mas só na campanha de 2008 foi descoberto o templo romano identificado há 69 anos.

O outro grande edifício da praça central, também identificado em 2008, “refere-se à primeira instalação romana da cidade e foi construído no final do século I a.C., no tempo de Augusto. “Eram importantes edifícios do fórum da cidade”, ou seja, da praça central onde se situavam os edifícios dos poderes político-administrativo, judicial e religioso.

Jornal i, por André Rito, Publicado em 06 de Outubro de 2009

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