Noticia: Por onde anda a memória das casas de Lisboa que contam histórias?

>> quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Muitas não estão assinaladas ou, sequer, protegidas. Há as habitadas, as abandonadas, as demolidas e são poucas as que chegam a casa-museu.

A casa onde viveu o olisipógrafo Júlio de Castilho, classificada como imóvel de interesse público, é património municipal desde 1997  
A casa onde viveu o olisipógrafo Júlio de Castilho, classificada como imóvel de interesse público, é património municipal desde 1997 (Foto: Miriam Lago)
 
Há na capital dezenas de casas em tempos habitadas por figuras das quais reza a História. Muitas nem estão assinaladas. Muitas nem estão protegidas. Há as habitadas, as abandonadas, as demolidas. Também há as casas-museus - e essas contam-se pelos dedos.

Há casas esquecidas. "Se diz que quer ficar mesmo no nº 18... é aqui." Para lá da janela do táxi vê-se apenas um prédio esventrado. Mas é o 18. Dizem que está habitado, mas as portadas que dão para a varanda do segundo andar estão abertas. De velhas e vandalizadas. Como que a mostrar o tecto que se desfaz - há buracos de estuque caído que deixam a estrutura de fora. A fachada é de azulejos em tons de azul. Remendados. Há rachas nas paredes e aqui e ali o cor de laranja dos tijolos a descoberto contrasta com o azul dos azulejos. E ainda assim o prédio tem um ar imponente. Aqui viveu Joaquim Machado de Castro, escultor português que trabalhou para a Casa Real. É dele a estátua de D. José I na Praça do Comércio.

Apenas no terceiro andar há vestígios de um inquilino: um pano branco sujo, seco do sol, pendurado. Engrácia Ferreira - e nome próprio é por causa da santa, faz questão de mencionar -, 78 anos, sai à varanda. Gosta de observar a Estação de Santa Apolónia e o rio de lá de cima. Diz que paga a renda a um escritório, mas que já não sabe quem será o dono daquilo. Repete várias vezes que dali não sai. Por nada. Um escultor viveu no prédio? "Isso é passado, não interessa." E de qualquer das formas não sabe de escultor nenhum. Por baixo do seu andar moraram os "batateiros", que vendiam batatas e feijão. "E viveu uma senhora que vendia livros, no rés-do-chão. Depois foram-se todos embora." Como é que nunca ouviu falar em Machado de Castro? Não há sequer uma lápide evocativa na fachada do prédio. Engrácia vive aqui há mais de 50 anos. Não sabe ao certo quantos, não os contou. Mas quando se mudou já Machado de Castro tinha morrido há muito.

São 155 as lápides evocativas de Lisboa, de acordo com as contas do Departamento de Património Cultural da câmara. Isto as autorizadas. Ninguém consegue garantir que não haja proprietários a colocarem-nas indevidamente. "A colocação de uma placa implica sempre a autorização da câmara e do proprietário do imóvel", clarifica a entidade que gere o património cultural da capital.

"Não somos muito pródigos a assinalar estas casas", diz o olisipógrafo Appio Sottomayor. "Regra geral ou não se assinala os sítios, ou até se despreza." E recorda o episódio da demolição da casa onde viveu Garrett, em Lisboa: "Nem lá passei ainda. Para não ver."

Não faltam casas com muitas histórias

Uma das fachadas mais recheadas da cidade será a do nº 6 da Rua João Pereira da Rosa. Provavelmente "um dos mais literatos de Lisboa" - assim descreve o olisipógrafo Appio Sottomayor o prédio onde chegaram a viver Ofélia Marques, José Gomes Ferreira, Bernardo Marques, Fernanda de Castro, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e António Ferro.

Assinalar os locais é importante e poderá ser um primeiro passo para iniciativas futuras, como percursos ou roteiros por locais que marcaram a vida de uma personalidade. Quando se deu início às obras de demolição de uma das casas onde viveu Pessoa, na Estefânia, a directora da Casa Fernando Pessoa, Inês Pedrosa, não se mostrou impressionada. "Choca-me mais que o local não esteja assinalado como tendo sido uma das moradas de Fernando Pessoa e que não haja por Lisboa um percurso pessoano", disse ao PÚBLICO na altura. Essa casa não estava protegida. Nos casos em que o património está ameaçado a câmara pode até expropriar os imóveis. "Mas isso nunca acontece", lamenta Paulo Ferrero do movimento Fórum Cidadania Lisboa. "A própria câmara não dá o exemplo. Veja-se o caso da casa de Júlio de Castilho."
(continua)

0 comentários: